
Kim Achan
Atualizado em 21 de ago. de 2025
CONTEÚDO
O silêncio das interfaces
Num mundo onde a atenção é o recurso mais disputado, o silêncio virou um luxo. Começo esse texto fazendo um paralelo com um movimento atual: o Quiet Wellness. “E como isso se relaciona com o design UX/UI?” você me perguntaria. Então: essa trend que tem tomado o mundo da moda recentemente, é consequência da vida pós-pandêmica num planeta em guerra que pede calma, respiro e descanso.
Coisa que no mundinho do wellness se reverberou em estilo de vida, roupas e comportamentos, reverbera no design com novas formas de consumir conteúdos e se relacionar com interfaces. Um novo modo leve, com foco no bem-estar e de alinhamento pessoal entre app <> humano.
Estamos majoritariamente cercados por estímulos – anúncios, cliques, anúncios, pop-ups, anúncios, animações (já falei anúncios?). Quando temos cada pixel tentando falar mais alto que o anterior o que acontece quando uma interface resolve – intencionalmente – não falar?
Com isso, queride leitor, entramos na primeira reflexão desse texto:
O valor do não dito
Quando estamos estudando design em seu princípio, passamos por conceitos da forma, do significado que a forma tem quando ocupa um espaço e o significado que ela também tem quando deixa de ocupar ele. E por isso, ser UI designer não é só pensar naquilo que vai estar na tela. Também é pensar no que não vai estar lá.
Um espaço em branco que respira. Tê-lo, não é mais uma escolha do minimalismo "clássico” – mas sim, um exercício de aprendizado e evolução que nós designers estamos tendo em direção às interfaces do futuro (por enquanto que ainda estamos construindo essas interfaces em telas).
O visual hoje pede organicidade. Vamos lá: estamos tendo cada vez mais contato com os modelos de linguagem natural, com IAs que te respondem com voz humana, te chamam pelo nome e sabem seu histórico de uso da internet. Será mesmo que a interface que abraça todo esse novo meio de consumir é aquela quadrada, sem graça, com foco cego em conversão?
UX sem ruído
Interfaces que não cansam são aquelas que não nos fazem pensar mais do que o necessário. Que não jogam informação como se cada segundo fosse uma oportunidade de venda (sem qualquer shade ao Spotify, Youtube, Instagram mas cara… sério?).
Elas dizem o essencial com clareza e deixam espaço para o usuário habitar o fluxo. Sem apressar. Sem distrair. Sem esgotar. E isso exige muito mais do que remover elementos: exige escuta. Exige intenção.
Quando tudo ao redor compete por atenção, uma microinteração bem pensada pode ser como um abraço. O “espaço em branco” que comentei acima funciona do mesmo jeito aqui, sendo que em outro significado. Em vez de ser, de fato, um espaço vazio, na microinteração é o segundo de espera, o delay na animação. No momento em que tudo é tão rápido, tão imediato, estender uma animação – meio segundo que seja – lembra o usuário de respirar. De que tá tudo bem.
O luxo de não interromper
Criar interfaces que não cansam é também resistir à tentação do excesso de comunicação. Não é porque podemos dizer tudo, que devemos. Às vezes, o melhor que o design pode fazer é sair do caminho.
Permitir que o usuário pense. Sinta. Escolha. Se o ambiente digital não fica interrompendo o fluxo abrimos espaço para que ele experimente e aprenda durante a própria jornada, de forma orgânica.
“Um bom design é, na verdade, muito mais difícil de notar do que um mau design, em parte porque bons designs se ajustam tão bem às nossas necessidades que se tornam invisíveis, servindo-nos sem chamar atenção para si mesmos.”
The Design of Everyday Things - Donald Norman
O silêncio como transição para o que vem
E talvez esse cuidado com o silêncio não seja só um alívio para o presente, mas sirva como uma preparação para o futuro. A preocupação do design com o tempo e o espaço do usuário hoje é um dos maiores exercícios que podemos fazer como profissionais. Estamos cada vez mais perto do fim desse limite do pixel. Logo logo, teremos interações fora das telas, pertencentes ao mundo físico. Estamos começando a viver um movimento onde as interfaces deixam de ser “lugares” e viram “presenças”. Onde o design não se olha, se sente.
Interfaces vão se dissolver em gestos, voz, contextos, sensores. A interação será fluida, invisível, mais próxima da vida real do que de um wireframe.
E quando isso acontecer, o respeito ao usuário será a maior ferramenta das plataformas do futuro. Porque o desaparecimento da interface não será um truque tecnológico. Será um avanço sensível – construído com escolhas mais humanas, mais calmas, mais essenciais. O futuro das experiências digitais não é só mais inteligente – é mais sensível. E sensibilidade, no design, muitas vezes se revela no que a gente opta por não mostrar, não tocar, não interromper.
O silêncio é, cada vez mais, uma interface premium.
E talvez em breve, o mais bonito que o design poderá fazer…
é desaparecer.
O silêncio das interfaces
Num mundo onde a atenção é o recurso mais disputado, o silêncio virou um luxo. Começo esse texto fazendo um paralelo com um movimento atual: o Quiet Wellness. “E como isso se relaciona com o design UX/UI?” você me perguntaria. Então: essa trend que tem tomado o mundo da moda recentemente, é consequência da vida pós-pandêmica num planeta em guerra que pede calma, respiro e descanso.
Coisa que no mundinho do wellness se reverberou em estilo de vida, roupas e comportamentos, reverbera no design com novas formas de consumir conteúdos e se relacionar com interfaces. Um novo modo leve, com foco no bem-estar e de alinhamento pessoal entre app <> humano.
Estamos majoritariamente cercados por estímulos – anúncios, cliques, anúncios, pop-ups, anúncios, animações (já falei anúncios?). Quando temos cada pixel tentando falar mais alto que o anterior o que acontece quando uma interface resolve – intencionalmente – não falar?
Com isso, queride leitor, entramos na primeira reflexão desse texto:
O valor do não dito
Quando estamos estudando design em seu princípio, passamos por conceitos da forma, do significado que a forma tem quando ocupa um espaço e o significado que ela também tem quando deixa de ocupar ele. E por isso, ser UI designer não é só pensar naquilo que vai estar na tela. Também é pensar no que não vai estar lá.
Um espaço em branco que respira. Tê-lo, não é mais uma escolha do minimalismo "clássico” – mas sim, um exercício de aprendizado e evolução que nós designers estamos tendo em direção às interfaces do futuro (por enquanto que ainda estamos construindo essas interfaces em telas).
O visual hoje pede organicidade. Vamos lá: estamos tendo cada vez mais contato com os modelos de linguagem natural, com IAs que te respondem com voz humana, te chamam pelo nome e sabem seu histórico de uso da internet. Será mesmo que a interface que abraça todo esse novo meio de consumir é aquela quadrada, sem graça, com foco cego em conversão?
UX sem ruído
Interfaces que não cansam são aquelas que não nos fazem pensar mais do que o necessário. Que não jogam informação como se cada segundo fosse uma oportunidade de venda (sem qualquer shade ao Spotify, Youtube, Instagram mas cara… sério?).
Elas dizem o essencial com clareza e deixam espaço para o usuário habitar o fluxo. Sem apressar. Sem distrair. Sem esgotar. E isso exige muito mais do que remover elementos: exige escuta. Exige intenção.
Quando tudo ao redor compete por atenção, uma microinteração bem pensada pode ser como um abraço. O “espaço em branco” que comentei acima funciona do mesmo jeito aqui, sendo que em outro significado. Em vez de ser, de fato, um espaço vazio, na microinteração é o segundo de espera, o delay na animação. No momento em que tudo é tão rápido, tão imediato, estender uma animação – meio segundo que seja – lembra o usuário de respirar. De que tá tudo bem.
O luxo de não interromper
Criar interfaces que não cansam é também resistir à tentação do excesso de comunicação. Não é porque podemos dizer tudo, que devemos. Às vezes, o melhor que o design pode fazer é sair do caminho.
Permitir que o usuário pense. Sinta. Escolha. Se o ambiente digital não fica interrompendo o fluxo abrimos espaço para que ele experimente e aprenda durante a própria jornada, de forma orgânica.
“Um bom design é, na verdade, muito mais difícil de notar do que um mau design, em parte porque bons designs se ajustam tão bem às nossas necessidades que se tornam invisíveis, servindo-nos sem chamar atenção para si mesmos.”
The Design of Everyday Things - Donald Norman
O silêncio como transição para o que vem
E talvez esse cuidado com o silêncio não seja só um alívio para o presente, mas sirva como uma preparação para o futuro. A preocupação do design com o tempo e o espaço do usuário hoje é um dos maiores exercícios que podemos fazer como profissionais. Estamos cada vez mais perto do fim desse limite do pixel. Logo logo, teremos interações fora das telas, pertencentes ao mundo físico. Estamos começando a viver um movimento onde as interfaces deixam de ser “lugares” e viram “presenças”. Onde o design não se olha, se sente.
Interfaces vão se dissolver em gestos, voz, contextos, sensores. A interação será fluida, invisível, mais próxima da vida real do que de um wireframe.
E quando isso acontecer, o respeito ao usuário será a maior ferramenta das plataformas do futuro. Porque o desaparecimento da interface não será um truque tecnológico. Será um avanço sensível – construído com escolhas mais humanas, mais calmas, mais essenciais. O futuro das experiências digitais não é só mais inteligente – é mais sensível. E sensibilidade, no design, muitas vezes se revela no que a gente opta por não mostrar, não tocar, não interromper.
O silêncio é, cada vez mais, uma interface premium.
E talvez em breve, o mais bonito que o design poderá fazer…
é desaparecer.